10/12/2009 - Toda dia ela faz tudo sempre igual
Pelo e-mail, Gabriela Vuolo, da campanha de clima do Greenpeace, conta como têm sido seus dias em Copenhague. Não muito bons. Leia seu relato:
“Estou em Copenhague acompanhando a CoP15, que começou essa semana, e a sensação depois de quatro dias é de que me sinto naquela música do Chico Buarque (”Cotidiano”). Na verdade, essa é uma sensação compartilhada por todo mundo aqui, pelo que eu pude perceber.
A impressão é que estamos vivendo o mesmo dia todos os dias. Acordar no escuro, vestir um monte de roupas, tomar café no mesmo lugar, fazer reunião com as mesmas pessoas. Pegar o ônibus no mesmo ponto, entrar no mesmo centro de conferência e acompanhar as mesmas discussões, com as mesmas pessoas, sobre os mesmos assuntos, até ficar escuro de novo (o que, nessa época do ano aqui na Dinamarca, não demora muito pra acontecer… mas as reuniões só terminam mesmo depois das 21h). Depois, pegar o mesmo trem, chegar no mesmo hostel e dormir, pra no outro dia começar tudo outra vez. Comer, ir no banheiro, falar com a família??? Só quando sobra tempo - ou seja, quase nunca.
O mais desesperador no entanto é ver que, dia após dia, as discussões e os impasses também parecem os mesmos de ontem e anteontem… Os avanços, quase inexistentes, vem em passos de tartaruga. No geral, as reuniões parecem apenas a repetição do dia anterior. As pequenas ilhas e os países menos desenvolvidos desesperados por um acordo que lhes permita sobreviver aos impactos das mudanças do clima. Os EUA, Canadá, Austrália e Japão querendo ver qualquer tipo de compromisso o mais longe possível e fazendo de tudo para que Copenhague termine sem nada de concreto - e para isso, a velha tática de discutir palavra a palavra e incluir cada vez mais opções de textos para confundir funciona muito bem. A União Européia num silêncio apavorante para o tamanho do desafio que temos pela frente. Uma crescente distância entre os países menos desenvolvidos e os grandes em desenvolvimento (Brasil, Índia, China e África do Sul). Todos os dias a mesma coisa, as mesmas palavras, os mesmos colchetes nos textos. E a mesma sensação de frustração com a falta de avanço - pelo menos para mim.
Vez ou outra acontece alguma coisa diferente.
Ontem foi Tuvalu, uma micro-ilha do Pacifício, que acabou conseguindo suspender as negociações depois de fazer pressão pela criação de um grupo separado para discutir as propostas para um tratado de Copenhague. [http://www.greenpeace.org/brasil/greenpeace-brasil-clima/noticias/tuvalu-a-v-tima-ataca] Desde então, quase não se fala de outra coisa por aqui. Não tanto pela suspensão das negociações em si, mas pelo que está por trás disso: um acordo legalmente vinculante ou só o blablabla político.
Hoje a pitada de diferença do meu dia foi logo cedo, na chegada ao centro de conferência. Por algum motivo, meu ônibus parou num ponto diferente e eu vim caminhando pela margem do espelho d’água que fica embaixo da linha do metrô, no qual instalaram várias esculturas representando pessoas magérrimas, com água até os joelhos. No final do espelho d’água, um contador marca a quantidade de refugiados climáticos por hora no mundo - assustador.
Confesso que até agora não sei se o arrepio que percorreu meu corpo foi por causa do frio que faz em Copenhague ou por causa do medo de que as esculturas se tornem uma realidade cotidiana se as negociações aqui continuarem como estão…”
Greenpeace